O que você recebe ao contratar um projeto de interiores
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Quando alguém me procura para um projeto, a primeira pergunta quase nunca é sobre estilo. É sobre o que, exatamente, vai chegar às mãos da pessoa no final.
É uma dúvida justa, e mal respondida no mercado. Projeto de interiores não é um serviço que se vê na prateleira: você paga antes de receber, e o que recebe é um conjunto de documentos que a maioria das pessoas nunca viu de perto. Dá para entender a desconfiança.
Então resolvi mostrar. O que está abaixo são páginas de um projeto real, executado por mim, um espaço de atendimento infantil. Removi tudo que identifica o cliente e o endereço; o que sobra é a parte que interessa: como um projeto é apresentado, peça por peça, e por que cada uma delas existe.
Primeiro, o que um projeto não é
Não é uma lista de compras, e não é um moodboard bonito.
Um moodboard mostra intenção, cores que combinam, um clima. Um projeto mostra decisão: esta bancada tem 90 cm porque quem usa tem tal altura; este corredor tem 80 cm livres porque é o mínimo para passar com uma criança no colo; este armário sobe até o teto porque o pé-direito permite e o metro cúbico de armário sai mais barato que o metro quadrado de sala.
A diferença entre os dois é que o segundo pode ser executado por um marceneiro sem que ninguém precise adivinhar nada.
A planta humanizada: o espaço visto de cima

Esta é a primeira peça, e a que mais muda a conversa com o cliente.
A planta técnica pura, aquela de linhas finas e cotas, é ilegível para quem não é da área. A planta humanizada resolve isso: é a mesma informação, com o mobiliário desenhado como ele é, visto de cima. Você reconhece a mesa, as cadeiras, o tapete, a área externa.
O que ela responde, e nenhum render responde: cabe? Quantas cadeiras cabem em volta da mesa sem travar a passagem. Quanto sobra entre o sofá e a parede. Se a porta abre sem bater no móvel. É aqui que a maioria dos erros caros é evitada, antes de existir.
Repare nos números marcando as áreas. Eles não são enfeite: definem o percurso, a ordem em que a pessoa atravessa o espaço. Num consultório isso é recepção, atendimento, exploração. Numa casa é chegar, largar as coisas, sentar, comer, dormir. Projetar é decidir essa ordem antes de escolher qualquer objeto.
As perspectivas: o espaço na altura dos olhos

A planta responde “cabe”. A perspectiva responde “como fica”.
É onde entram a luz, a altura real dos móveis, a proporção entre o que é madeira e o que é parede. Uma prateleira que parece equilibrada na planta pode ficar pesada vista de frente, e é melhor descobrir isso na imagem do que depois de instalada.

Note que são vários ângulos do mesmo ambiente. Isso não é excesso. Um render de um ângulo só esconde tudo que está atrás da câmera, e é exatamente atrás da câmera que moram os problemas: a parede que ficou vazia, o canto que não recebeu nada, a porta que some.
As marcações: onde o projeto vira instrução

Esta é a prancha que separa apresentação de projeto executável.
As chamadas sobre a imagem (armários superiores, porta de correr, revestimento dos armários existentes) são instruções. Cada uma diz o que é, onde fica e por que está ali. Quem vai executar não precisa interpretar: está escrito.
E há uma decisão importante escondida nessa imagem: nem tudo é novo. Parte da marcenaria existente foi mantida e apenas revestida. Projeto bom não é o que troca tudo; é o que sabe o que vale a pena manter.
Os detalhes e a materialidade


A última peça é a que parece mais decorativa e é a mais prática de todas.
A paleta nomeia cada cor e cada material: verde-sálvia, madeira natural, areia suave, terracota, verde-musgo, off-white. Ao lado, as amostras de textura, madeira natural, palhinha, pintura texturizada, ripado, tecidos, vegetação.
Por que isso importa: é o documento que impede o “achismo” na obra. Sem ele, o pintor escolhe o verde que tem na loja, o marceneiro usa o tom de madeira que sobrou, e o resultado é um ambiente que não conversa. Com ele, cada fornecedor recebe a mesma referência.

Por que isso sai mais barato do que não ter
A objeção mais comum é o custo do projeto. Ela faz sentido até a pessoa somar o custo de não ter um.
Sem projeto, o erro aparece na obra, e na obra o erro custa material, mão de obra e prazo, os três ao mesmo tempo. Um armário que não coube é um armário refeito. Uma tomada no lugar errado é parede reaberta. Uma cor que não funcionou é tinta comprada duas vezes.
Com projeto, o erro aparece no desenho, onde corrigir custa uma tarde de trabalho.
Some a isso o que se deixa de comprar: o projeto dimensiona antes, então você não compra o móvel que não cabe nem o item que ia “quebrar o galho” e acabaria trocado em seis meses.
E depois da entrega

A apresentação não é o fim. Ela é o documento que vai para o marceneiro, para o pintor, para o eletricista, e é com ela na mão que a obra acontece.
O desenho e a obra, lado a lado
Este é o teste que ninguém costuma mostrar: o ambiente pronto, fotografado depois da execução, ao lado do desenho que o originou.

O painel ondulado da terceira prancha, aquele desenhado como “formas orgânicas que suavizam o ambiente”, está ali, com a mesma curvatura, a mesma iluminação escondida no rebaixo, a mesma altura de televisão.

O arco artístico, que na prancha aparecia como um desenho de sol sobre montanhas, foi pintado exatamente assim. A fita de LED na quina, que na planta era uma linha, virou a luz que rasga a parede de cima a baixo.


Os armários superiores em verde-sálvia da prancha de marcações (“novos armários superiores, mais espaço para organizar materiais e recursos”) saíram na cor exata da paleta. É para isso que serve a prancha de materialidade: ela não deixa o tom ser escolhido na loja.

E o canto da cabana, que na planta humanizada era um contorno com um número ao lado, é hoje o lugar onde a criança se enfia quando quer ficar sozinha. Era exatamente essa a função prevista.
Este projeto foi executado à risca. É o melhor desfecho possível para quem projeta, e só é possível quando o que foi desenhado estava claro o bastante para não admitir interpretação.
Se o que você quer projetar é um espaço para crianças, escrevi em detalhe sobre as decisões que vêm antes do móvel em quarto compartilhado para crianças. E se a reforma é de área externa, o caso completo está em área gourmet: antes e depois.
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